Baixou a Mãe Dinah no Blogosfera!
Querem uma previsão de graça? Pois vou dar uma pra vocês: daqui a algumas semanas não ouviremos falar em guerra de quadrilhas e mortes no Rio de Janeiro. Os cariocas estarão convencidos novamente de que vivem no Paraíso na Terra. Que não há melhor cidade na América do Sul e mesmo no Mundo. Tem sido assim a vida inteira, desde que me entendo por gente. Quando eu era criança (há uns 30 anos...), a gente já ouvia e fazia piadinhas sobre a violência e os assaltos no Rio de Janeiro. Em 1º de junho de 1988 a edição da revista Veja mostrava os chefões do tráficon na favela da Rocinha exibindo-se com suas armas de guerra. O então prefeito Saturnino Braga e o governador Moreira Franco eximiam-se de suas responsabilidades, usando a mesmíssima frase: "não é comigo". Há 21 anos atrás Moreira Franco tirava o peso de suas costas e da consciência usando o mesmo discurso que já foi feito por Anthony Garotinho e atualmente por Sérgio Cabral: "o tráfico de drogas é um crime da área federal". E ponto final, nada tenho a ver com isso e estamos conversados! Nessa época o carioca já tapava o sol com a peneira. O discurso preferido era de que o crime, o tráfico e o perigo só existiam nas favelas e subúrbios. Enquanto Copacabana, Ipanema e Leblon e a Barra da Tijuca estivessem em segurança, estava tudo bem. Bastava botar a culpa das más notícias nas favelas e jogar a responsabilidade pro Governo Federal. Na edição de 13 de novembro de 1996 a revista Veja relatava que naquele ano as balas perdidas já haviam produzido 62 mortes e transformado o Rio numa "praça de guerra". Com o raio de fogo quilométrico de fuzis como AR-15 e AK-47, Copacabana e Ipanema já estavam ao alcance dos tiros a partir dos muitos morros circunvizinhos. O discurso dos governos estaduais não mudara em nada. A culpa continuava sendo do Governo Federal. O problema do Rio, portanto, é que uma boa parcela do povo faz de conta que está tudo bem e que vive no Paraíso. Isso se comprova em três traços incorporados em maior ou menor grau na sociedade e cultura locais, a saber: 1) A glamurização da malandragem. Volta e meia artistas, jogadores de futebol e políticos são flagrados em amizade íntima com traficantes e bandidos, e isso não choca ninguém e nem merece maior repreensão da sociedade e da mídia. Quando isso ocorre os envolvidos limitam-se a dar desculpas esfarrapadas, e fica-se por isso mesmo. Junte-se a isso a insistente defesa dos traficantes e milicianos como benfeitores das comunidades, que em alguns casos inclusive desemboca na eleição dos candidatos apoiados pela bandidagem, como os vereadores Nadinho de Rio das Pedras e Claudinho da Academia e o deputado estadual Jorge Babú; as garotas de classe média alta da Zona Sul que adoram namorar traficantes; e a excitação de jovens estudantes quando sobem o morro para comprar droga, alguns muito orgulhosos de serem tratados com intimidade pelos chefes do tráfico. Esse é o retrato do crime que vira charme... 2) A aceitação da droga aliada à negação de que o consumo alimenta o tráfico. Fale isso a um carioca e você está se arriscando a apanhar. É sério. O carioca jura que o consumo não alimenta o tráfico. Na cabeça da população local, as lojas de máquina de datilografia sumiram num passe de mágica, e não porque a clientela escasseou... 3) A leniência com os governantes ineptos é o terceiro traço do faz-de-conta. Governante após governante, todos adotando o discurso do "não é problema meu", a população vê o Estado esfarelar-se e continua elegendo governantes como quem elege parceiros de cerveja no bar. Garotinho e Cesar Maia, respectivamente governador e prefeito comédias, são um bom exemplo disso.
Enquanto os cariocas (e seus governantes) sentirem-se à vontade para colocar a culpa em alguém que não seja eles mesmos, está ótimo. Ele segue em paz com sua consciência e com a guerra civil comendo ao seu lado... O ideal mesmo seria cobrar a ação dos governantes, rejeitando o discurso fácil do "não é problema meu". Repudiar o bandido e tratá-lo como o cancro que ele representa na sociedade. E aceitar que o caminho mais curto pra matar o tráfico de inanição é fumar menos, cheirar menos e se picar menos... *O tema deste post foi sugerido pelo nosso leitor Ricardo Wagner. As opiniões expressas, entretanto, são de inteira responsabilidade do Blogosfera.
Escrito por Alan Souza às 13h08
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